terça-feira, 18 de maio de 2010

Número de mortes por dengue bate recorde em São Paulo

MÁRCIO PINHO

da Reportagem Local


O Estado de São Paulo bateu em 2010 o recorde de mortes por dengue. Foram pelo menos 64 casos desde janeiro, de acordo com levantamento feito pela Folha junto às prefeituras.
O número é o maior desde o início da contagem dos casos de dengue --em 1990-- e representa quase o dobro do recorde anterior: 35 mortes em 2007.
Em 2008, quando a doença perdeu força, a então gestão José Serra (PSDB) deixou de atender 2,2 milhões de pessoas com visitas e trabalhos de controle da proliferação de vetores.
O contingente representa 35% da meta de 6,4 milhões de pessoas, traçada pelo governo estadual para aquele ano, segundo os últimos dados do PPA (Plano Plurianual 2008-2011).
O treinamento de profissionais também ficou aquém da meta. Em vez de 9.000, como previa o PPA, foram treinados pouco mais de 6.000.
A Secretaria da Saúde afirmou que não se pode relacionar as mortes a visitas domiciliares. É preciso, diz, considerar a alta incidência de chuvas neste ano e as altas temperaturas, condições propícias para a proliferação do mosquito, além da assistência prestada por unidades de saúde sob responsabilidade das prefeituras.
Para autoridades sanitárias, o combate ao mosquito Aedes aegypti é a principal forma de combater a dengue. Segundo o Programa Nacional de Controle da Dengue, ele deve ocorrer mesmo em períodos de baixa incidência, como no inverno.
A epidemia no Estado está mais grave no litoral. Apenas em Santos houve 19 mortes, e a prefeitura obteve autorização da Câmara para invadir casas fechadas em busca do mosquito. No Guarujá foram 12 mortes, o que forçou a prefeitura a abrir uma unidade de saúde só para casos de dengue.
Na capital, cerca de mil pessoas contraíram a doença, mas não houve mortes. Já São José do Rio Preto e Ribeirão Preto vivem epidemias e já registraram 9 e 5 mortes, respectivamente. No Vale do Paraíba, Taubaté vive epidemia. Os números podem ser maiores, devido à subnotificação.
Para o infectologista Evaldo Stanislau de Araújo, no litoral há a hipótese de que a dengue tipo 2 que circula na região seja mais agressiva, semelhante à que causou mortes no Rio de Janeiro em 2008.
Já o tipo 1, que voltou a predominar em vários Estados, também contribui. Como ele não aparecia com força desde a década de 90, muitas pessoas ainda não tinham imunidade.
Com o frio, a tendência é a doença arrefecer. O infectologista Evaldo Stanislau de Araújo, da Faculdade de Medicina da USP, diz que é "inaceitável" haver mortes por dengue.
"A mortalidade da dengue é menor que 1%, desde que os pacientes sejam medicados, tratados. Fazer isso é barato. Exige organização e foco. O tratamento da dengue é fundamentalmente hidratação", diz.

Outro lado

A Secretaria da Saúde do Estado afirmou, em nota, que não se pode relacionar as mortes por dengue "a visitas domiciliares e outras atividades ligadas ao trabalho de controle de endemias".
Segundo o órgão, as manifestações clínicas da dengue e a evolução dos pacientes estão relacionadas à circulação dos diferentes tipos de vírus e à assistência prestada nas unidades de saúde --que é de responsabilidade das prefeituras.
Ao governo estadual cabe a capacitação de profissionais de saúde, o monitoramento de índices larvários e o diagnóstico laboratorial de casos suspeitos por meio do Instituto Adolfo Lutz.
De acordo com a secretaria, o plano de visitas domiciliares para 2008 foi elaborado no meio de 2007, ano em que o Estado registrou recorde de infectados --92 mil.
"Como em 2008 o número de casos caiu cerca de 90% em relação ao ano anterior, não houve necessidade de realizar os 6 milhões de atendimentos previstos, uma vez que a baixa transmissão da doença dispensou parte do trabalho de apoio às atividades de nebulização feita pela Sucen [Superintendência de Controle de Endemias]."
A explicação é a mesma em relação ao menor número de profissionais capacitados.
A secretaria diz que as capacitações e atividades de apoio da Sucen são crescentes. Em 2008 foram 6.300 profissionais treinados. Em 2009, 8.100.

Polícia acha pomada com validade vencida em clínica onde duas morreram em SC

JEAN-PHILIP STRUCK

da Agência Folha


A polícia encontrou uma pomada de efeito anestésico com a validade vencida na clínica em que duas pacientes morreram após realizarem uma endoscopia, em Joaçaba (419 km de Florianópolis).
Usada para lubrificar o endoscópio -tubo ótico-, foi encontrada dentro de uma lixeira da sala onde eram feitos os exames. De acordo com a polícia, ela estava vencida desde 9 de março.
Ontem, a Visa (Vigilância Sanitária) de Santa Catarina interditou a clínica, onde também seis mulheres passaram mal após realizarem endoscopia. O local, segundo o órgão, também não tinha alvará de funcionamento e não poderia realizar o exame.
Entre os que passaram mal, uma garota de 15 anos segue internada em um hospital da cidade e outras cinco pessoas foram liberadas.
Segundo a Visa, ainda não é possível determinar a causa da mortes. A polícia suspeita que a pomada vencida, uma dosagem errada ou um erro de manipulação do anestésico podem ter causado as mortes. Falta de equipamentos adequados para lidar com emergências também pode ser outro motivo.
De acordo com a Visa, o médico gastroenterologista responsável pelos exames, Denis Conci Braga, 31, só tinha autorização para ter um consultório médico e não podia oferecer exames de endoscopia.
Segundo a vigilância, no caso de Joaçaba, Braga aplicou doses de diazepan ou midazolan (Dormonid) para anestesiar as pacientes e usou a pomada vencida, que contém lidocaína, para lubrificar o endoscópio.
Braga, que também é proprietário da clínica, foi preso na sexta em flagrante por homicídio culposo (sem intenção de matar). Ele prestou depoimento e foi liberado após pagar fiança de R$ 2.550.
No sábado, foram enterradas Maria Rosa dos Santos, 52, e Santa Sipp, 60. Elas morreram de parada cardiorrespiratória ainda na clínica, logo após o exame de endoscopia digestiva, que investiga doenças do aparelho digestivo com o auxílio de um tubo flexível.
Há cerca de cinco anos, três pessoas morreram e 12 passaram mal em Itagibá (BA) após exame de endoscopia. À época, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) apontou que ocorreu um erro na concentração do princípio ativo da anestesia e interditou a empresa responsável pela fabricação.
A Folha tentou falar com o advogado de Braga, Germano Bess, deixou recado, mas não houve retorno até as 17h30.